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15/12/2008 12:00

O papel da família na saúde mental

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Crianças e adolescentes criados em orfanatos estão mais propensos a transtornos psiquiátricos.
A falta de convivência familiar pode prejudicar a saúde mental das crianças. Pelo menos é o que mostra a tese de mestrado Transtornos psiquiátricos em crianças e adolescentes criados em instituições, de Susane Rocha de Abreu, defendida recentemente no departamento de psiquiatria da Unifesp. Dos 63 menores entre 11 e 17 anos analisados em cinco orfanatos no estado de São Paulo, 49% deles apresentaram algum tipo de transtorno psiquiátrico. A depressão é o mais freqüente deles (28,6%).

 "Crianças e adolescentes institucionalizados têm maior chance de apresentar transtornos psiquiátricos do que aqueles que vivem com a família. Suas vidas são marcadas por muitos eventos adversos", diz a pesquisadora. "Essas crianças merecem especial atenção dos profissionais de saúde mental e da sociedade como um todo, a fim de minimizar seu sofrimento e favorecer-lhes um desenvolvimento mais saudável, contribuindo para que tenham um futuro melhor."

O presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria Biológica, Delcir da Costa, concorda com a pesquisadora. "É um problema que pode ser melhorado ou mesmo sanado com a inserção do indivíduo na sociedade, através de tratamento psicoterápico, atividades de lazer e oficinas. Algumas crianças são mais vulneráveis psicologicamente e, portanto, sucumbem facilmente ao ambiente, não conseguindo superar dificuldades e podendo desenvolver distúrbios de comportamento".

O resultado do estudo não espanta os psiquiatras e psicólogos ouvidos pelo Salutia. Vale lembrar que a literatura médica mundial indica que crianças e adolescentes institucionalizados apresentam atrasos em seu desenvolvimento e estão mais propensos a problemas de saúde, físicos e mentais. Segundo os entrevistados, crianças e adolescentes que crescem longe de uma referência familiar podem apresentar principalmente distúrbios de comportamento, tornando-se agressivas, sem limite ou mesmo caindo em depressão.

"O convívio familiar é fundamental para a estruturação psíquica da criança, na formação de valores e vínculos afetivos. A falta disso pode gerar carência, agressividade ou depressão", diz a psicóloga e professora da Faculdade de Educação da Universidade do Estado de Minas Gerais, Renata Schettino Canelas. "Grande parte das crianças de orfanatos não consegue vivenciar o que é possível até mesmo em famílias desestruturadas, ou seja, o contato com pais e familiares, a divisão de tarefas e o senso de limite."

Segundo o psiquiatra Jansen Campomizzi, para se constituir psiquicamente, a criança precisa ter algum tipo de convívio com os pais, não necessariamente os biológicos. "O importante é que esse convívio seja harmônico. Na maioria das vezes, essas crianças de orfanato costumam eleger como pai e mãe simbólicos a própria instituição em que moram. O problema é quando esses limites vão sendo colocados de forma autoritária e impessoal, sem a quantidade de afeto necessária para a constituição psíquica saudável de um indivíduo."

O afeto é primordial na formação da personalidade de uma criança. Mas outros fatores também devem ser levados em conta. A falta de alimentação adequada tanto da gestante quanto da criança em seus primeiros anos de vida pode gerar problemas neurológicos irreversíveis. "Não é só a falta de convívio familiar, mas a falta de alimentação, de cuidados no pré-natal, de educação e também de infra-estrutura do ambiente em que se vive. Essa carência acaba favorecendo a formação de psicoses", alerta o psiquiatra Arnaldo Madruga, que trabalha com menores carentes internados no Centro Educacional Horto da Secretaria do Trabalho e Ação Social de Minas Gerais.

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